segunda-feira, 10 de setembro de 2012

cobra (Hydrodynastes melanogigas)

  
 
Uma serpente de quase 2 m de comprimento, semi-aquática e com escamas negras e lustrosas não parece o mais discreto dos répteis. Mas o bicho, nativo do cerrado de Tocantins, tinha passado totalmente despercebido da ciência -- até agora.
A criatura acaba de ser descrita formalmente por Francisco Franco e Bruno Bentim, do Instituto Butantan, em São Paulo, e por Daniel Fernandes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em artigo na revista científica "Zootaxa", especializada em publicar descrições de novas espécies, o trio batizou o bicho de Hydrodynastes melanogigas. Em grego latinizado, a segunda parte do nome significa, não por acaso, "negra e gigante". O bicho não tem nome popular definido, mas "cobra-d-água-preta" seria uma boa escolha, segundo Franco.

 



 
Isso porque a serpente, a exemplo das sucuris (com as quais, contudo, não tem parentesco próximo), fica muito à vontade em rios e lagos, caçando basicamente peixes e sapos nas bordas e no interior de cursos d'água. A aparência pode impressionar ou até assustar, mas na verdade não há muito a temer em relação a essa espécie. "Ela tem uma saliva um pouco tóxica, que pode causar edemas [inchaço] e exigir algum tratamento, mas nada sério. O sistema de produção e inoculação de veneno dela é bem simples", explicou Franco, do Butantan, ao G1.


 
 
cobra (Hydrodynastes melanogigas) (GRM)


Exemplares do bicho foram coletados pela primeira vez quando a represa da hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, no Tocantins, foi enchida pela primeira vez -- um trabalho de salvamento faunístico que é comum nesses casos. Franco conta que foi fácil perceber que se tratava de uma serpente bem distinta dos outros membros do mesmo gênero (até então, conheciam-se duas outras espécies do gênero Hydrodynastes). Suas "primas" possuem uma cor entre o creme e o marrom.
 


"Essa cor preta não é uma característica que a gente vê como uma variação no interior das outras espécies. E, como essa cobra possui uma distribuição geográfica bem diferente das outras, sempre com essa aparência, a gente considera bastante seguro classificá-la como uma espécie diferente", afirma Franco.
 

 
 
Outros detalhes da anatomia do bicho também foram analisados e incluídos na classificação da nova espécie.

Segundo o pesquisador do Butantan, ainda é cedo para dizer se o animal corre risco de desaparecer, embora o cerrado como um todo seja um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta. O que a descoberta da cobra-d'água-preta deixa claro, no entanto, é o quão pouco ainda se sabe sobre a diversidade de vida do Brasil.

"Essa é uma cobra grande, corpulenta e muito conspícua, ou seja, bem visível. Mesmo assim, não havia nem sido coletada por cientistas antes. Não foi um bicho que nós tivemos de desencavar de museus, onde ainda pode haver espécies confundidas com outras parecidas", lembra ele.

Franco estima que até 30% da fauna brasileira de serpentes ainda seja desconhecida.             É cobra que não acaba mais: as espécies já descritas chegam a 353, segundo a Sociedade Brasileira de Herpetologia (que congrega os especialistas em répteis e anfíbios). Ou seja, mais de cem espécies ainda precisam ser descobertas. É bom lembrar que só a minoria desse serpentário -- 54 espécies -- é composta por espécies venenosas.
 
 

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